Aqueles que desistem da liberdade essencial para obter uma pequena e temporária segurança não merecem nem liberdade nem segurança (Benjamin Franklin).
Estou deprimido. Perturbadoramente deprimido. Sim, eu sei que estou com um brinquedinho novo e tal. Sim… eu sei q estou devendo o restante do relato, mas estou tão deprimido que nem consigo pensar nisso.
O motivo de tamanha depressão? Juscelino Kubitschek.
É… eu sei que o cara é um “herói nacional” e tal… Mas para mim ele cometeu um erro importantíssimo. Talvez o mais grave erro que um estadista de um país democrático pudesse cometer: Ele criou Brasília.
Peraí!!! Já posso antecipar a quantidade de flames que o parágrafo anterior vai gerar… Antes de me flamear, deixa eu explicar… (Antecipadamente, peço desculpa aos brasilienses que provavelmente são tão gente boa quanto o resto de nós, brasileiros).
Um país democrático precisa que suas instituições de poder estejam “a disposição” do povo, e não somente “a serviço”. Com isso quero dizer que eu, enquanto povo, devo ter o direito de olhar na cara de meu representante, eleito com o meu voto, e mandar ele praquele lugar, se assim desejar. Não digo impunemente (provavelmente enfrentaria alguma acusação de desacato ou algo assim), mas livre e democraticamente.
Não parece ser suficiente que mais de 126 mil pessoas tenham expressado por escrito seu descontentamento com o vigilantismo que paulatinamente cresce na pauta legislativa brasileira… Talvez se a capital federal ainda fosse no Rio de Janeiro (ou em algum lugar acessível pelo povo de outra forma que não o avião), uma boa parcela dessas 126 mil pessoas poderiam fazer um piquete na frente do Congresso Nacional para se expressar verbalmente: um gigante VÃO TOMAR NAQUELE LUGAR! talvez surtisse mais efeito.
Estou deprimido porque a proteção de vítimas de um crime hediondo (embora muitíssimo mais infreqüente do que tantos outros de que somos vítimas) seja usada para alimentar a paranóia geral, e para subverter a presunção de inocência a que todos têm direito constitucional. Sim… obviamente acho que a pedofilia é uma doença e um crime e, como tal, sou contra… mas também sou contra a destruição das liberdades civis. George Orwell já havia alertado o quão perigoso é a cedência das liberdades civis em nome do Estado; os últimos dois mandatos executivos estado-unidenses nos mostraram isso com riqueza de detalhes; a mais recente Olimpíada, da mesma forma. Agora, ao que parece, o Brasil também entra no rol dos exemplos negativos.
(Se Brasília não fosse tão longe, vocês acham que isso aconteceria? Talvez sim, o que desabonaria Juscelino… Mas agora nunca saberemos.)
Estou deprimido porque as “proteções” a que todos estaremos submetidos a partir de tal medida são tão facilmente ultrapassáveis que não precisa nem ser muito geek para fazê-lo. Estou mais deprimido porque, mais uma vez, atacamos um problema pelo lado, sem enfrentá-lo de frente; porque mais uma vez vamos atrás dos “peixes pequenos”... Quem realmente fatura com a pedofilia (esse sim, um criminoso e não um doente) vai apenas acrescentar mais uma camada de proteção (se é que já não o fez).
Estou deprimido porque não paro de imaginar qual será o próximo passo… Não paro de pensar que o cenário Orwelliano parece estar inexoravelmente no fim dessa estrada, ainda que os quilômetros finais talvez sejam apenas vistos pelos meus netos (será?).
Enfim, estou deprimido…
(que me desculpem os fãs de Juscelino… É que um cara deprimido culpa qualquer um…)







