Soluções mágicas

Posted by – 29/04/2012

Todos somos fascinados por soluções mágicas. É da natureza humana acreditar em magia e existem diversas teorias versando sobre a causa desse fenômeno. Esse post não trata de nenhuma dessas teorias. Quero tratar de outro assunto no qual também parece que as soluções mágicas estão em voga durante muito tempo: a ideia de que, para melhorar a Saúde Pública no Brasil, precisamos de mais médicos.

Essa ideia só pode ser advinda de uma impressionante falta de informação. Já se foram os tempos em que o médico era um “lobo solitário”, que sozinho resolvia qualquer problema. Essa transformação da medicina de uma atividade individual para uma atividade coletiva deve-se a diversos fatores que, sozinhos, já renderiam um livro. Para encurtar a história, basta mencionar o ritmo galopante em que as coisas mudam na Medicina, a quantidade de informação necessária para que um médico esteja atualizado e o progressivo aumento da complexidade do tratamento das doenças. Adicione a isso a descoberta de um imenso “filão” de rendimentos representado pelos processos médicos e você tem a situação em que a Medicina se encontra hoje: nenhum médico quer praticar a Medicia sozinho e sem recursos.

Entendendo apenas superficialmente os motivos acima já é suficiente para compreender por que é tão difícil para um médico em início de carreira decidir praticar a Medicina longe das capitais. Coloque-se momentaneamente no lugar desse médico e imagine que você está indo para um ambiente com menos recursos do que os que você dispunha enquanto estava fazendo a sua formação; você dispõe de menos colegas com quem discutir um caso difícil (muitas vezes, no caso dos especialistas, você está indo para um local em que o único que entende de um dado assunto é você! – o que, de quebra, ainda garante uma quantidade de trabalho muito maior); e sobre cada decisão que você tomar nesse ambiente, você está se arriscando a perder tudo o que conseguiu – incluindo a sua reputação – por um processo desses propostos por “advogados de porta de hospital” (no mínimo perdendo a paz durante longos meses de briga judicial).

No lugar daquele médico, você iria para longe da capital?

No entanto, a população parece comprar a ideia que o governo vende de que faltam médicos no Brasil. Ora! Não faltam médicos! Eles estão, isso sim, mal-distribuídos. Concentrados onde sentem segurança de praticar a Medicina com o padrão de qualidade que a população merece.

Não é uma questão de mercado que se pode resolver aumentando a oferta de profissionais! Tudo o que estamos fazendo ao abrir ainda mais uma faculdade de Medicina é reduzir o ganho (já bastante reduzido) dos médicos que atuam nas capitais. Não se enganem! Ninguém vai sair da capital em busca de melhores salários no interior se isso representar ter de praticar uma Medicina de pouca qualidade ou se isso representar se expor aos riscos que descrevi acima.

Tudo isso serve para mascarar o problema e vender uma solução mágica: ao invés de investir em proporcionar recursos para que os médicos assumam com qualidade postos de trabalho fora das capitais é muito mais fácil colocar a culpa na “falta de médicos” e abrir mais uma faculdade de Medicina (e lucrar todos os benefícios eleitorais que tal atitude certamente trará).

Por isso quero fazer eco ao artigo do ex-Ministro da Saúde Dr. Adib Jatene: abrir mais vagas nas faculdades de Medicina, ou criar novas faculdades, não vai resolver o problema da Saúde Pública no Brasil.

Será que não aprendemos com nossos erros? Por quantos planos econômicos heterodoxos o Brasil teve de passar até adotar o caminho da ortodoxia com o plano Real? Nossos governantes têm uma inegável inclinação pelas soluções mágicas… “basta cortar alguns zeros”… “vamos confiscar as poupanças que a inflação vai cair”. Ora! como disse Mário Henrique Simonsen: “o que só tem no Brasil, e não é jaboticaba, é besteira!”. Essa solução de abrir mais vagas de Medicina é exatamente isso: mais do mesmo. Mais uma solução mágica para um problema real.

Por favor! Vamos tentar ser realistas. Admitir que o problema real pelo qual a Saúde Pública passa precisa de uma solução real é um bom primeiro passo.

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