Internet e Anonimidade

Posted by – 17/05/2009

Pode parecer estranho, mas a Internet nunca foi projetada para ser uma rede anônima. O endereço de IP único identificaria definitivamente cada ponto conectado a rede. Se você já construiu uma rede local sabe exatamente do que estou falando… a maneira mais fácil de fazê-lo é atribuir um número de IP novo, único e imutável para cada ponto na rede, e era exatamente isso que era feito quando a Internet estava em sua infância.

Você pode ver um mapa de como a Internet, em sua presente encarnação, está dividida por áreas (e, claro, uma versão do XKCD). Prova de que o espaço de números na Internet foi, inicialmente, tratado como nós mesmos tratamos pequenas redes locais é a grande área no quadrante superior esquerdo desse mapa… nessa área vemos que universidades e companhias americanas daquela época detém enormes espaços de números, enquanto enormes regiões do globo detém frações desses espaços (sim… somando Xerox e IBM temos o mesmo espaço que toda a América Latina e Caribe!).

O que fez a Internet tornar-se uma rede quasi-anônima foi exatamente o seu enorme sucesso. Quando os blocos disponíveis começaram a ser mais rapidamente alocados coisas como “o fim do mundo” começaram a ser previstas. (Atualmente, acreditamos que em qualquer momento pelo fim de 2010 o espaço disponível para alocação vai simplesmente acabar) O que salvou a Internet (e continua a retardar o fim dos tempos) foi o NAT. O NAT permitiu a utilização de um número limitado de IPs “quentes” por um número ilimitado de IPs “frios”. Isso permitiu o crescimento da Internet comercial: artificialmente geramos um “cidadão de segundo nível” (detentor de um IP “frio”)… alguém dependente de um provedor de acesso (os detentores dos IPs “quentes”).

Com a pulverização dos provedores e dos usuários ficou extremamente difícil rastrear a utilização que alguém faz da Internet. Como subproduto disso temos uma anonimidade de facto. A história vai dizer se tenho razão ou não, mas acredito que esse subproduto é e está sendo extremamente importante para a manutenção dos direitos aqui fora, no mundo real. Coisas como o WikiLeaks, a Freenet e o Tor têm sido extremamente importantes, preservando a anonimidade das pessoas e denunciando abusos aos direitos de inúmeras pessoas (e até nações!).

É claro que isso incomoda muita gente… Principalmente muita gente poderosa. Pessoas que estão sujeitas a mais um tipo de escrutínio em suas ações. Pessoas que suprimiriam seus acusadores sem mais delongas, caso soubessem quem são. Além de, é claro, pessoas que não querem arcar com os custos que as demandas on-line exigem no quesito segurança. Não me surpreenderia nem um pouco se descobrissem que motivos como esse estejam por trás de Projetos de Lei como o do Senador Azeredo (e seus similares mundo afora).

Já escrevi antes, mas não custa repetir: os únicos prejudicados por tais “leis” são os que tentarem cumpri-la. Sim, eu e você… Pessoas comuns, que não têm nada a temer por navegar abertamente na Internet. Os verdadeiros criminosos, esses vão apenas colocar mais uma camada de proteção. Como disse David Wheeler: Qualquer problema em ciência da computação pode ser resolvido com mais uma camada de indireção… E isso é exatamente o que os criminosos farão! Nós, pessoas de bem, é que estaremos sujeitos ao escrutínio diário, ininterrupto e completamente sem motivo algum!

Pense bem: você estaria disposto a ter 100% dos seus passos registrados, 100% das vezes no mundo real? Por que você permitiria isso no mundo virtual? “Por que os malditos pedófilos precisam ser presos!!!” alguns responderão. Mas esses pedófilos não vão ser presos… simplesmente por que, facilmente, colocarão uma camada extra de proteção. No início será interessante, ver alguns desses doentes (sim, a pedofilia é uma doença, antes de ser um crime) sendo presos… Porque doentes são, geralmente descuidados. Mas prendê-los é o principal objetivo? Vou mudar a pergunta um pouquinho: prender o consumidor de drogas é o principal objetivo? (ou seria prender o traficante?). Sim… assim como os traficantes, os vendedores de pedofilia sairão impunes, simplesmente porque não são tão descuidados quanto os doentes!

Mesmo que ganhemos a batalha contra o projeto-de-lei do Sen. Azeredo, vejam que essa é apenas a primeira batalha. A menos que estejamos dispostos a manter uma vigilância constante para entrarmos nos próximos embates bem embasados (e, mais que isso, estejamos dispostos a jogar o mesmo jogo por vezes sujo que o adversário), perderemos a guerra. Sempre vai existir o próximo Sen. Azeredo… Mas existe uma solução em definitivo: refazermos a rede.

Sim… refazermos a rede. Hoje a Internet é “clientelista” e não o é sem motivo… Dependemos dos meios físicos, dos cabos trans-atlânticos, dos satélites, do cabo do provedor… Pagamos por isso, e somos submetidos a ser um “cidadão de segundo nível” na Internet. É assim porque, por mais que queiramos acreditar o contrário, no fundo a Internet tem “dono”. Mas não precisa mais ser assim…

A tecnologia evoluiu e podemos nos conectar sem fios, com o mínimo de investimento, comprando apenas uma antena (um Access Point)… De uma maneira quase milagrosa, essas antenas podem se enxergar umas às outras, e se comunicar entre si. Os mais “antenados” (no pun intended) já perceberam do que falo: redes Mesh. Existem protocolos de redes Mesh que mantém a anonimidade, e que podem crescer ad infinitum, como o Netsukuku (Sim, eu sei que o IPv6 é bastante grande, mas o infinito é bem maior 🙂 ), ou projetos bastante interessantes, como o Roofnet do MIT. Quando todos estivermos em uma gigante rede Mesh, pra que precisamos da Internet mesmo? E nesse momento, o que farão os detratores da liberdade?

5 Comments on Internet e Anonimidade

  1. Olá nardol (é este seu nome?)

    Muito interessante este post. Eu moro na inglaterra e aqui este processo já está muito mais avancado, apesar de que parece que ninguém está ciente do que está acontecendo.
    O governo aqui gastou 1 bilhão de libras (R$=x3) para colocar dispositivos entre os provedores para espiar nos cidadãos, acredita?? Tudo em nome da segunraca, claro, com certeza.
    Eu tenho esse blog:
    http://umanovaordemmundial.blogspot.com/
    Veja esse último artigo, em que essa unidade de “polícia médica” para investigar “pessoas obsecadas com outras”. Enfim, a secretária de estado usou essa agência para ameacar um cara que tinha mandado uma carta chamando ela de comunista. Bem, o cara estava altamente justificado 🙂

    Vou assinar o abaixo assinado e fazer um post sobre o assunto, que é de indignar qualquer um. Apesar que aqui estamos a 10 anos a frente em matéria de estado de polícia.

    abraco
    emerson

  2. vi na tv um delegado de polícia falando que muito fácil pegar alguém pelo endereço IP, eu só dei risada

  3. Tiago says:

    Muito bom mesmo, eu já uso o Tor a algum tempo, e tenho certeza que vigiar todos os passos de um cidadão na internet, não vai contribuir muito na captura de infratores. O que poderia contribuir sim, seria investir mais dinheiro em tecnologia, em treinamento de peritos mais qualificados para conseguirmos capturar os “malfeitores” da internet.
    Agora colocar em xeque o direito de ir e vir (mesmo virtualmente) de um cidadão na TENTATIVA de aplicar um processo que não possui nenhuma indicação de que vai ser eficaz, é demais.

    Abraços.

  4. Tulio says:

    Procurem informações sobre o Fon.
    É uma rede que tem crescido muito na Europa e que poderia ajudar.
    Na Fonera 2, eles disponibilizaram um plugin para trabalhar com redes mesh.
    Visitem: http://www.fon.com
    Abraços

  5. Arnoldo Rodrigues says:

    É isso aí! A tecnologia salvando da mediocridade. Fazer uma rede Mesh anonima e alternativa à Internet soluciona todos os problemas… Imbecis como o Leite Azedo vão ter de aprender que não há vitória possível contra a vontade de todos. Basta nos mantermos unidos e subverter a ordem de baixo para cima. Eu entraria alegremente em uma rede Mesh anônima, e contribuiria para mantê-la no ar!

    Alguém mais ajudaria a implantar um Netsukuku aqui em Campinas?

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *